¿HÉROE O VILLANO?

¿HÉROE O VILLANO?

viernes, abril 28, 2017

O SAMBA E DE MACHO


Teresa Cristina: “O samba reflete o machismo, mas de um modo menos hipócrita”

A sambista carioca evita letras machistas que embalam clássicos da música popular

Teresa parte para a Espanha, onde se apresenta em dueto com Caetano Veloso

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Teresa Cristina Caetano
Teresa Cristina analisa a figura da mulher no samba.
“Teresa canta Cartola” e “Caetano apresenta Teresa”. A junção de dois espetáculos combina diferentes gerações e estilos da música brasileira. De um lado, Caetano Veloso, 74 anos, expoente do tropicalismo que confrontou a ditadura militar no fim da década de 60. Do outro, Teresa Cristina, 49 anos, uma das raras vozes femininas que alcançaram projeção no samba, graças, em parte, a um texto elogioso de Caetano que lhe rendeu destaque no The New York Times. Ao lado do violonista Carlinhos Sete Cordas, a dupla faz um show capaz de transitar pelas notas melancólicas de Cartola sem perder o tom do ritmo centenário que é um símbolo do Brasil. Às vésperas de embarcar para uma turnê pela Europa, que inclui cidades como Barcelona (28/4), Corunha (30/4) e Madri (4/5), Teresa conversou com o EL PAÍS sobre a parceria com Caetano, o papel da mulher no samba e o boicote a letras que reproduzem preconceitos.
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Pergunta. Verdade que seu sonho era ser cantora de rock?
Resposta. Eu ouvia Diana Ross, Michael Jackson, Bee Gees... Com uns 16 anos, eu acabei virando “metaleira” por influência de um primo. Me encantei pelo rock. E até hoje eu ouço. Não tenho voz para cantar rock, mas adoro Van Halen, Iron Maiden, The Killers. Só que a minha praia é outra. Ouço todo tipo de música, mas o som que me arrebata, que me faz relaxar, é o do samba.
P. Como surgiu a ideia de fazer um show com Caetano?
R. Eu gravei uma música dele, “Gema”. Ele gostou da versão e me chamou para participar do show dele – “Obra em Progresso” – em 2008. Depois, quando fui trabalhar com a Paula [Lavigne], mulher dele, o Caetano conversou comigo sobre o meu jeito no palco, que gostava muito do meu trabalho, mas queria que eu me soltasse um pouco mais. Ele me deu vários toques sobre postura de palco. E, então, foi assistir ao meu espetáculo do Cartola. Ele se emocionou, porque eu fiz várias coisas que ele sugeriu. Eu estava tensa. Era uma sessão dupla. Logo no primeiro show, eu fiquei bêbada. Quando chegou o show que tinha o Caetano na plateia, eu já tava meio de pileque. Por isso não senti tanto a pressão.
Caetano e Teresa durante a apresentação de um show.
Caetano e Teresa durante a apresentação de um show.
P. Você costuma beber antes de cantar?
R. Sempre tomo uísque durante os shows. Eu fui cantar com a Xênia França, uma cantora baiana que vive em São Paulo. No final, ela disse que eu tinha lhe dado uísque no palco: “Poxa, eu nem sou de beber pra cantar. Eu bebo na ‘vida real’, mas, no palco, não bebo.” Eu sou o contrário. Na ‘vida real’, nem bebo tanto. Eu bebo no palco [risos]. Porque o repertório do Cartola é bem forte, né? São músicas tristes, é tudo muito melancólico.
P. E como vocês mesclam a melancolia do Cartola com as músicas do Caetano?
R. Primeiro, eu canto meia hora de Cartola. Ele vem em seguida e faz um show de 50 minutos. Depois, ele me chama de volta e a gente faz cinco músicas juntos. Eu, ele e o Carlinhos [Sete Cordas]. O show ganhou corpo, passou por Ásia, Europa e Estados Unidos. Já é uma história nossa, sabe? Ficou com uma unidade bacana. Às vezes me cai a ficha: “Caraca, tô fazendo um show com o Caetano!” Mas na hora eu fico tão concentrada que não me deixo abalar muito. Me cobro para fazer tudo certo.
P. As letras das músicas do Cartola também te abalam?
R. Eu já sou um pouco melancólica por natureza, mas não queria que o show ficasse pesado. A bebida ajuda a me soltar. Mesmo lidando com a melancolia, com a tristeza, eu tento deixar o ambiente mais descontraído. Eu brinco, por exemplo, com essa coisa do Cartola na música “Tive sim”, que é muito cruel com a mulher. Ele fala que tinha outra antes dela, que era muito feliz. E aí eu troco o gênero. Eu canto a música na voz masculina e depois faço na voz feminina. Como se a mulher virasse pro homem com a mesma postura que ele teve. É um momento muito legal do show. As mulheres se levantam, gritam e cantam junto.
P. Sentia um desconforto por interpretar uma música que, de certa forma, deprecia a mulher?
R. Me incomodava, sabe? Eu não gosto de trocar gênero de música. Eu respeito o compositor. Mas eu passei a sentir empatia por aquela mulher. Pô, uma mulher ouvir aquilo... E no final ele ainda fala: “Mas vou calar, pois não pretendo, amor, te magoar”. E magoou a música inteira. Eu entendo que essa canção é dos anos 70. A relação do homem com a mulher era diferente. A mulher aceitava algumas coisas que a gente já não aceita mais. A música é linda. Mas desse jeito, fazendo a adaptação, fica mais natural para mim. Eu canto sem me sentir culpada de repetir esse discurso machista.
P. Por que a mulher ainda não ocupa um espaço de protagonismo no samba?
R. É bom lembrar que o samba só nasceu no Rio de Janeiro porque foi introduzido por uma baiana, a Tia Ciata. As pastoras aprovavam o samba de terreiro balançando o lenço. A presença da mulher foi importante nesse contexto. Se pegar as gravações de samba e tirar a voz feminina, fica tudo pesado. O coro feminino dá uma força para o samba que o diferencia de outros ritmos. É um recurso de unidade, de afirmação da cultura. Sem a mulher, o samba não existiria. Era um gênero feito por homens que tinha a mulher como tema. Apesar de não aparecer como compositora, a mulher estava nas letras. Há canções que são uma ode à mulher, mas, em outras, ela é demonizada por fazer os homens sofrerem. Como se a recíproca não fosse verdadeira. Com o tempo e o surgimento de novas compositoras, essas letras vão mudar um pouquinho.
P. O samba é essencialmente machista?
R. O samba reflete o machismo da sociedade, mas de uma maneira menos hipócrita. O machismo que existe no samba não é velado como o racismo no Brasil, por exemplo. É visível. Eu percebo na sociedade atitudes extremamente machistas com a desculpa de “ah, não, isso não tá acontecendo, isso não existe”. No samba, o machismo é mais claro. Você chega numa roda de samba e logo vê a quantidade de homens, sem nenhuma mulher cantando ou tocando um instrumento. Há muito mais compositores que compositoras. Essa discrepância é facilmente notada. Será que não existem compositoras? Será que o número é menor por que elas não existem ou por que elas não têm voz?
P. Mas, como você disse, no passado elas tiveram voz, não?
Teresa Cristina interpreta Cartola.
Teresa Cristina interpreta Cartola.
R. A Dona Ivone [Lara] foi a primeira mulher, em 1965, a ter um samba-enredo na Avenida. Depois de 50 anos sem uma composição feminina, eu fiz o samba da Renascer de Jacarepaguá, em 2015. Fui a primeira mulher a ganhar o Estandarte de Ouro [prêmio concedido pelo jornal O Globo]. Mas é inexplicável por que não haja mulheres entre tantos compositores de samba. É preciso jogar luz sobre isso. Em várias de suas músicas, Dona Ivone teve de colocar o nome de um homem [na autoria] pro samba andar. Isso sempre mexeu comigo, assim como várias letras de músicas. Tem uma que é assim: “Se essa mulher fosse minha, eu tirava do samba já, já. Dava uma surra nela que ela gritava ‘chega’”. Isso é uma música! Um samba que incendeia a roda e todo mundo bate palma. Tem outra, que foi o primeiro samba-enredo da Portela: “Lá vem ela, chorando, o que ela quer? Pancada não é, já sei.” Olha isso! As pessoas cantam sem refletir. E a Portela foi campeã com esse samba. Ficou o estereótipo da mulher que, além de ser o demônio de saias, é um bicho interesseiro, preocupada com ascensão social, roupa e vaidade, enquanto o homem é o coitado, que fica sofrendo apaixonado. Esses sambas foram gravados, é fato, e a gente não pode fingir que eles não existem. A questão não é demonizar esses sambas, mas fazer outros que definam o que a mulher realmente representa.
P. Mudar essa percepção da mulher no samba é uma missão que você assumiu?
R. Eu quero muito. A minha contribuição é tentar compor cada dia melhor e fazer sambas na voz feminina que tenham a mesma repercussão que as letras machistas tiveram. Apesar de discordar das mensagens que passam, reconheço que são músicas bem feitas, com uma amarração de versos e melodias belíssimas. Mas é preciso dar um contrapeso feminino à história do samba.
P. Existe uma corrente que questiona os preconceitos difundidos nas marchinhas de Carnaval, como em “O teu cabelo não nega”, do Lamartine Babo...
R. Quem me chamou a atenção para o racismo na letra dessa música foi a Dona Memélia, mãe do Chico Buarque, que é branca. A gente tava na casa dela tocando um monte de marchinha de Carnaval. Quando começou a tocar “O teu cabelo não nega”, ela disse: “Mas que horrível! Essa música é racista. Como assim a cor não pega? O que tem de errado com a cor?”. Depois daquele dia, eu nunca mais cantei essa música. Prefiro cantar outras. É proibido cantar essa música? Não. Você pode cantar o que quiser. Mas, a partir do momento que me incomoda, eu não canto.
P. Para o show do Cartola, você optou por deixar alguma música de lado por causa do viés machista?
R. Teve uma, infelizmente. Ela se chama “Feriado na Roça”, que é um samba rural lindo. Fala de um cara que mora na roça e se apaixona por uma menina de lá. Ela vai pra cidade grande e, depois de um tempo, ele fica sabendo que ela tá voltando pra roça. Ele para o serviço, troca as cordas do violão e prepara uma seresta para recebê-la. Mas a mulher volta de braços dados com um doutor. E aí ele pega o revólver, dá dois tiros nela e no cara. Como é que eu vou cantar essa música? A melodia é maravilhosa, mas não dá. E eu nem culpo o Cartola, porque não se trata de um caso isolado. Isso não é exclusividade do tempo dele. É só abrir o jornal hoje em dia que você vê. O que mais tem é homem que não aceita a separação e mata a mulher. Ainda há essa coisa de “não vai ser minha, não vai ser de ninguém”. Agora, nós, mulheres, estamos acordando. O caso do Zé Mayer foi histórico. Uma emissora poderosa como a Globo afastando um ator poderoso como o Zé Mayer. Temos que parar com essa história de achar que toda mulher que se diz molestada é maluca, louca, quer se promover [respira fundo]... Dá uma esperança quando acontece um movimento como o “Mexeu com uma, mexeu com todas”. A maioria das pessoas, e não só as mulheres, apoiou a moça que denunciou o assédio. Imagina essa mulher? Ela precisa ter apoio, acompanhamento psicológico e um emprego. Ela não pode ficar marcada como “a mulher que acusou o Zé Mayer”. Eu prefiro que ele, sim, seja conhecido como “aquele ator que assediou a mulher”.
“O artista tem de se posicionar. Mas a classe artística, mesmo com todo esse desmonte que acontece no Brasil, as ações políticas com notas de fascismo, machismo e homofobia, faz um silêncio estarrecedor”
P. Tanto você quanto o Caetano se engajaram publicamente na campanha. Esse tipo de atitude é necessário para marcar uma posição política como artista?
R. Não é uma questão meramente política. É questão de cidadania. O artista tem de se posicionar. Mas a classe artística, mesmo com todo esse desmonte que acontece no Brasil, as ações políticas com notas de fascismo, machismo e homofobia, faz um silêncio estarrecedor. É algo absurdo. Eu sinto falta do artista engajado. As pessoas simplesmente não se posicionam. A impressão que dá é que o artista brasileiro, salvo exceções, só existe no palco. Fora do palco, ele não é ninguém. Parece que algumas pessoas não são tocadas quando um direito é revogado, como nessa história da terceirização. Estamos perdendo o pouco que tínhamos. Direitos trabalhistas que conquistamos na época de Getúlio Vargas. E aí? Silêncio. Isso me incomoda demais.
P. Acredita que o artista, em linhas gerais, tem medo se posicionar?
R. Acho que é o medo de rejeição. Vemos muitos artistas sendo atacados nas redes sociais e nas ruas por causa de seu posicionamento político. O Chico Buarque faz parte da história do Brasil, e isso não impediu que ele fosse agredido. Mas tem artista que só quer o filé mignon, que tenta ser visto como 100% fofo. Não sei o que faz uma pessoa se calar diante de injustiças.
P. Na época da ditadura, o Caetano Veloso foi um dos artistas que se rebelaram contra o regime militar. Você o tem como uma inspiração?
R. O Caetano se manifestou num período em que a voz dele era necessária. Nos anos 60 e 70, a resistência da classe artística contra a ditadura precisava existir. Há um momento emocionante no nosso show, quando cantamos “Como 2 e 2”. Essa música tem uma letra forte e um peso muito grande. Eu a cantava quando tinha quatro anos. Eu ficava imitando minha mãe cantar ouvindo o disco do Roberto Carlos. É uma música que, a cada ano que passa, fica mais atual. Hoje em dia, o Brasil é isso: “tudo certo como dois e dois são cinco”. Exatamente o que estamos vivendo agora. Toda vez que eu canto essa música com Caetano no palco e olho pra ele, eu choro. Tento me segurar, volto a olhar pra plateia, disfarço, mas é difícil segurar a emoção. Eu me lembro do Brasil, da minha infância, do que essa música representa. Cantá-la com o Caetano é uma vitória.
P. Há algumas décadas, o samba abriu espaço para mulheres que também marcavam posição, como Leci Brandão, Alcione, Elza Soares, Beth Carvalho...
R. Todos os nomes que você citou são de mulheres fortíssimas, mulheres de opinião. A gente sabe muito bem o que elas pensam. Sempre se posicionaram em momentos importantes da nossa história. Eu me posiciono como cidadã. Nunca fui de aceitar imposições. As coisas não me incomodam por eu ser cantora de samba, mas sim por ser brasileira. Temos um sistema político carcomido, essa madeira podre que não cai. Me sinto agoniada e impotente diante disso. Já perdi muitas noites de sono pensando nos rumos que o Brasil está tomando. O Bolsonaro vai a um clube de judeus, fala as maiores barbaridades do mundo, fala dos negros e de quilombola, e tem gente rindo na plateia. Isso me revolta. Não consigo me calar.
P. Já foi ofendida por manifestar suas opiniões?
R. Ah, eu já me deparei com muita gente sem luz, principalmente em rede social. Já fui xingada dos piores nomes possíveis. Certa vez postei uma mensagem para o Arlindo Cruz, que estava em um quadro crítico no hospital, e um sujeito disse: “Isso que dá acreditar nesses deuses que vocês acreditam”. Já me colocou no bolo, porque o Arlindo é do candomblé e eu sou da umbanda. Na época da reeleição da Dilma [Rousseff], era ainda pior. Mas, hoje em dia, esses ignorantes são minoria. Cara a cara, na rua, nunca me abordaram. Ninguém tem dúvidas em relação ao meu posicionamento político. Se o silêncio for o preço para ter mais fãs ou fazer mais shows, eu prefiro continuar onde estou. Sou feliz assim.
P. Sofreu muito preconceito em sua trajetória para se tornar cantora?
R. Sofri mais preconceito por estar cantando samba do que por ser mulher. O mundo do samba que me acolheu sempre me tratou bem. Fui muito respeitada por todos, principalmente pela velha guarda. Tive mais problemas por causa do gênero musical. Já fui cantar em lugares em que eu exigia um bom retorno de voz e a pessoa falava: “Gente, mas é samba!” Como se qualquer coisa servisse para fazer um samba. Acham que não precisamos passar som, não precisamos ensaiar. Tratam o samba como uma coisa menor.
“Ainda dizem que mulher fica assistindo jogo só pra ver as pernas dos jogadores. Desde quando a gente precisa do futebol pra ver corpo de homem?”
P. Ao contrário das gerações de Leci Brandão e Dona Ivone, hoje há poucas mulheres em evidência no samba. Já em gêneros como o sertanejo, por exemplo, a mulher vem ganhando terreno. Você observa essa tendência fora do samba?
R. As mulheres estão aparecendo no sertanejo de uma maneira bem bonita. Não é um gênero que ouço muito. Mas, por mais que eu não acompanhe tanto o sertanejo, é preciso reconhecer o mérito da voz feminina. A mulher tá falando dela. “Ah, o homem é safado, cachorro e não sei o que lá”. Mas o homem não falava isso da mulher antigamente? As mulheres do sertanejo estão trabalhando bem e ganhando espaço. Simone e Simaria, Marília Mendonça, Maiara e Maraísa etc. Tem uma coisa que me incomoda naquela música dos “50 reais”. É a parte “não sei se dou na cara dela ou bato em você”, quando a mulher encontra o cara no motel com outra. Isso repete um padrão masculino. Eu cantei os “50 reais” no Carnaval, mas mexi nesse verso. Fiz assim: “Eu não vou dar na cara dela nem dou em você, eu só vim atrapalhar sua noite de prazer” [risos]. Dei uma mudada pra tirar essa parte da agressão, porque acho meio pesado. De qualquer forma, é importante o que elas estão fazendo. Tem assunto, viu? Se a gente sentar e for listar as atitudes do homem que nos aborrecem, olha, dá pano pra manga.
P. Você é vascaína e canta músicas do clube em seus shows. De onde vem o apreço por dois universos (samba e futebol) majoritariamente masculinos?
R. Eu amo o Vasco e amo o futebol. Ainda dizem que mulher fica assistindo jogo só pra ver as pernas dos jogadores. Desde quando a gente precisa do futebol pra ver corpo de homem? Eu assisto futebol porque gosto. Apesar das rivalidades, esse papo de ficar chamando flamenguista de ladrão, falando que clube tal é time de viado, também são coisas que eu não gosto. Eu não brinco assim com meus amigos. Futebol e samba são dois lugares onde a predominância é masculina. Mas, desde criança, sempre gostei de futebol de botão e de outras brincadeiras tipicamente masculinas. E eu não me masculinizei por causa disso. Cantar samba ou frequentar estádio de futebol não significa que eu queira ser homem.
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TANGO QUE ME HICISTES MAL Y SIN EMBARGO TE....

El pucho en la oreja

Homero, el adelantado

El cantor de tangos es un mediador entre el poeta y el público. No todas las músicas populares tienen esta condición. El tango sí, tal vez porque sea grave, misterioso, de aguas profundas. Como el hacer y el decir de los dioses griegos, también de profundidad y también de mediación: las pitonisas, en la Grecia antigua, eran las mediadoras entre los dioses y los hombres.
. El cantor de tangos es un mediador entre el poeta y el público. No todas las músicas populares tienen esta condición. El tango sí, tal vez porque sea grave, misterioso, de aguas profundas. Como el hacer y el decir de los dioses griegos, también de profundidad y también de mediación: las pitonisas, en la Grecia antigua, eran las mediadoras entre los dioses y los hombres. El hombre quería saber su destino y consultaba entonces a las pitonisas. Estas daban sus respuestas de un modo enigmático, oscuro. Un acertijo que el hombre debía resolver. Se trataba de una lucha entre lo divino y lo humano: los dioses griegos no son afectos a develar su saber y obligan al hombre a tener que luchar para poder conseguirlo. Era pura agonía, pura lidia por develar el destino. (El primer tango canción, "Mi noche triste", tiene este espíritu griego: que la mujer se vaya es el efecto de su decisión; que él se quede amurado, es todo su destino).
El poeta griego, como Homero, el del comienzo. No nuestros Homeros, Manzi y Expósito, sino aquel otro, el de la Ilíada y la Odisea. Ese Homero era ciego y por ello sabio, porque veía sólo con el alma aquello que hay que ver y no con los ojos, con los que no se ve nada. El poeta traía la voz y el hacer de los dioses a la ciudad; o sea, la palabra del dios se politiza, vincula a unos con otros, dice la tradición, funda el saber de la polis griega. El esplendor de Atenas es este, el de fundar una memoria para el pueblo que va a ser inalterable.
El poeta es un hacedor de memoria para el pueblo; el pueblo puede no conocer esa memoria pero la vive en carne propia. En Argentina, está escrita de diversos modos. En el siglo xx, sin dudas buena parte de esa memoria fue hecha por los poetas de la cultura popular, en el tango, en el teatro y en el cine. El esplendor del tango en la Argentina, en la primera mitad del siglo, es elocuente: Cobián, Amadori, Manzi, Manuel Romero, Discépolo, Troilo, Le Pera, Celedonio, Elvino Vardaro, González Castillo, Contursi, Arolas, Cátulo, Cadícamo, Miguel Caló, Gobbi, Goñi, Kicho Díaz, Piazzolla. Carlos Gardel. Todos, todo junto, por la misma vereda y cruzando la misma calle. Atenas en Buenos Aires, el siglo v antes de Cristo en el 1900; el Egeo por el Río de la Plata y la lira por el fueye. De los 200 años de vida libre argentina, hay cincuenta de belleza extrema. La memoria es esta, de poesía musical y de palabras a ritmo. El cantor en el medio, sibilino, llevando de un lado a otro la música y la palabra.
¿Es posible que haya un poeta para un cantor? Edmundo Rivero, ¿está hecho de Celedonio Flores? Fiorentino, ¿está hecho del Gordo Troilo? ¿Y Roberto Ray de Fresedo? Goyeneche, ¿está hecho de Homero Expósito?... SIGUE,BUSQUEN A SUDESTADA EN INTERNET

HOJE EM BRASIL


Marcos Diniz

LA IGLESIA LES PROHIBIO COGER HACER 500 AÑOS Y SIGUEN LA PROHIBICION

Hacer el amor ya es la principal fantasía sexual de los españoles

GRACIAS COMPAÑERO POR HABER GUIADO A UNA GENERACION

A 40 años de la desaparición de Héctor Oesterheld, ese viajero de la eternidad de Montoneros, fue secuestrado en la ciudad de La Plata el 27 de abril de 1977. Ya habían sido asesinadas por la dictadura militar sus cuatro hijas; Diana (24), Beatriz (19), Estela (25) y Marina (18).

Por Mercedes Ezquiaga

El 27 de abril se cumplirán 40 años de la desaparición de Héctor Germán Oesterheld, militante, escritor y guionista de “El Eternauta”, obra maestra y emblemática de la historieta argentina: si bien nunca se conoció el paradero de su cuerpo, se cree que fue asesinado en 1978 por la dictadura militar, siguiendo el mismo destino trágico de sus cuatro hijas.

"El único héroe válido es el héroe en grupo, nunca el héroe individual, el héroe solo", decía en el prólogo de su obra cumbre realizada junto al dibujante Francisco Solano López, que cuenta la historia de Juan Salvo, viajero de la eternidad, quien se materializa frente a un historietista para narrarle las vivencias de resistencia ante una invasión extraterrestre en la ciudad de Buenos Aires, a través de una nevisca mortífera.

La historieta publicada inicialmente en 1957 en la revista Hora Cero Semanal ofrece un acuciante final que, con el paso del tiempo, no solo resultó mítico sino insoslayable en el marco de las dictaduras militares que se sucedieron en América latina. Al momento de su distribución se promocionaba como "la historia del hombre que viene de regreso del futuro, que lo ha visto todo, la muerte de nuestra generación, el destino final del planeta”.

“Esto significa que la nevada mortal caerá sobre la Tierra en 1963.. que, dentro de cuatro años, los Ellos descargarán sobre nosotros su espantosa invasión... ¿Qué hacer? ¿Qué hacer para evitar tanto horror?”, desliza el personaje del historietista, sobre el final de la obra, luego de escuchar el relato de Juan Salvo, el viajero de la eternidad.

"Escuché. Todo el resto de aquella noche no hice más que escuchar y sí, cuando el Eternauta concluyó su relato ya todo estaba claro, tan claro como para llenarme de pavor, y de una enorme piedad, por él, por mí, por tí, lector. Pero no adelantaré nada... es necesario que se conozca la historia del Eternauta tal como él me la contó", reza el comienzo de la emblemática obra, para muchos el primer relato de ciencia ficción de la literatura argentina.

Nacido en Buenos Aires el 23 de julio de 1919, Oesterheld fue geólogo pero desde muy joven escribió cuentos infantiles. A principios de los años 50 se volcó al género de la historieta de aventuras, en el que se reveló como un guionista prolífico y original. Entre sus creaciones se incluye "Sargento Kirk", "Ticonderoga" y "Ernie Pike", con dibujos de Hugo Pratt; "El Indio Suárez", junto a Carlos Freixas; "Randall the Killer", con Arturo del Castillo; "Sherlock Time" y "Biografía del Che", con Alberto Breccia; "Joe Zonda" y "Rolo, el marciano adoptivo", también con Francisco Solano López.Resultado de imagen de oesterheld  fotos y dibujos

Activo militante de Montoneros, tras vivir meses oculto y cambiando de viviendas -por momentos se refugiaba en el Tigre y por eso eran varios los que notaban sus borceguíes embarrados- fue emboscado y secuestrado en la ciudad de La Plata el 27 de abril de 1977. Durante la dictadura militar también fueron secuestradas y desaparecidas sus cuatro hijas -Diana, Marina, Beatriz y Estela-, dos yernos del escritor, y los hijos que dos de ellas llevaban en su vientre. Oesterheld habría sido fusilado en Mercedes en 1978 y aun hoy está desaparecido.

“Emocionalmente, no puedo separar el hecho de ser su nieto al momento de emitir una opinión sobre la obra de Héctor Oesterheld, mi abuelo, pero considero que es una de las figuras centrales de la cultura argentina, del siglo pasado y de siempre”, dijo a Télam el escritor y poeta Fernando Araldi Oesterheld, hijo de Raúl Araldi y Diana Oesterheld.

“Tenemos la suerte (para él merecidísima) de ver cómo su obra se expande día a día, en argentina y en el mundo; una obra que abarca el formato de historieta y el de la literatura más convencional, siempre en el género de la aventura, o de ciencia ficción, como por ejemplo su libro recientemente publicado 'Más allá de Gelo', que recopila todos sus cuentos de ciencia ficción escritos para diversas revistas también en el extranjero. Por eso para mí es un escritor con todas las letras, con todo lo que eso significa, no solo un guionista de historietas”, agregó.

“Sabemos que su obra más emblemática y popular, 'El Eternauta', a partir del contexto histórico en el que el país entra en la década del 70, y justamente por ser él mismo actor activo junto a sus cuatro hijas de la lucha armada, se lee en clave política, y sobre todo porque la segunda parte, escrita ya en la clandestinidad y dictada muchas veces por teléfono público tuvo la intención de ser escrita de esa manera. Pero afortunadamente también es una obra que abarca muchas maneras de leerla”, esbozó.

Por su parte, las periodistas Fernanda Nicolini y Alicia Beltrami, autoras de “Los Oesterheld”, una biografía coral sobre esa familia aniquilada por la última dictadura militar, señalaron a Télam: “Si 'El Eternauta' es una historieta tan excepcional como clásica hay algo de eso en el propio Oesterheld: con su aspecto de abuelo, aún siendo joven y juvenil, y su parsimonia para hablar, siempre estaba corrido de la norma, de lo normal, de lo esperado. Era, en definitiva, excepcional”.

“Como guionista de historietas planteó una nueva manera de abordar el género, por fuera de los parámetros norteamericanos de superhéroes y villanos, trayendo las historias al ámbito local, pero, sobre todo, como decía él, poniendo como héroes a personas comunes que tienen que enfrentar situaciones fuera de lo común. Como el Juan Salvo de 'El Eternauta' y Ernie Pike”.

Sobre el ámbito privado, que muy detalladamente abordan en su libro, dijeron que “también era un padre diferente: cariñoso y cercano, trabajaba en su casa -algo extraño en la década del cincuenta para un hombre- y pasaba mucho tiempo con sus hijas, a las que les escribía cuentos y cartas. Esa unión se manifestó luego en la vida militante. Si bien cada uno de ellos hizo su propio camino dentro de Montoneros, él estuvo cerca y en algunos momentos incluso acompañó la militancia de sus hijas. No era muy común un militante de su edad dentro de Montoneros, Héctor los reconfortaba, les daba calma y hasta les habilitaba cierto espacio para plantear dudas o certezas en cuanto al camino que estaban siguiendo".

Según las autoras de "Los Oesterheld", "él nunca dudó de su decisión de unirse a la lucha armada, pero desde su perspectiva, había cierta rigidez militante que valía la pena quebrar en pos de lo humano. Porque, en definitiva, era un humanista y lo fue hasta sus últimos días, como atestigua Marcela, quien con doce años había sido detenida y trasladada a los centros clandestinos el Vesubio y Sheraton y en su recuerdo atesora a Héctor como su salvador: en pleno cautiverio, él le contaba historias, le hacía practicar lecciones como si asistiera a la escuela y hasta le enseñó a jugar al hockey con un palo y un bollito de papel. Todo para que esa niña pudiera seguir siéndolo en medio del terror. Mientras esto ocurría, a fines de 1977, a sus hijas ya las habían desaparecido. Y él lo sabía".

El escritor Juan Sasturain, uno de los principales especialistas y difusores del genero historieta, prefirió recordar al guionista a través del prólogo de su libro “El Aventurador (una lectura de Oesterheld)”, en el que recoge gran parte de los textos que escribió sobre Oesterheld desde mediados de la década de 1970 hasta la actualidad: “Héctor Oesterheld fue un notable contador de aventuras y, por sobre todas las cosas, un hombre bueno y sensible”, señala allí.

“Cuando Oesterheld escribía -desde los primeros cuentitos infantiles en La Prensa o la colección Bolsillitos, a sus historietas militantes puras de los últimos meses de la clandestinidad- no imaginaba ni inventaba ni conjeturaba; Oesterheld aventuraba. Toda su vida fueron formas de aventurar. Aventurar es imaginar, suponer, proponer con riesgo: poner la convicción y el cuerpo detrás de la imaginación, de la invención. Es decir, hacerse cargo de lo que se crea (y se cree). Oesterheld fue un aventurador. Uno que concibió la vida como una aventura y la vivió hasta las últimas consecuencias”, escribió Sasturain.